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Mostrando postagens de 2016

Amor incondicional I

Te amei. Te amei, quando os olhares se cruzaram e mãos se apertaram em uma gélida manhã de inverno. Te amei. Te amei, quando na inocência das palavras lábios se tocaram, línguas se entrelaçaram numa dança passivamente gostosa e efusivamente lascívia. Oh!!!, te amei. Te amei tanto, que na luxúria de seu encanto toquei seu corpo, senti o seu gosto e gozei no seu gozo. Fiz repousar na entranha de sua carne a semente da minha existência. Seu corpo estava suado, seus cabelos, avacalhados. De sua vulva vulcânica, a lava não queimava e, sim, lubrificava o vai-...

Almas separadas

Hoje acordei, virei na cama mas você não estava ao meu lado. Que sensação horrível! Costumava me virar, olhar você e desejar bom dia. Todos os dias, a mesma rotina. Nos 56 anos de nossa comunhão, amor, afeto e companheirismo, unimos e dividimos nossas vidas. Não consigo deixar de verter lágrimas que abrigam em seu travesseiro, cuidadosamente colocado em nosso canto da cama. Seu perfume ainda está ali. Fala comigo!! Toda manhã é essa angústia que comprime meu peito, esfacelando minha alma. Adorável senhora, fala comigo em sonhos. Há muito, não consigo tê-los. Minhas noites são vazias de sonhos, são vazias de você. Amei-a até o seu último suspiro. Naquela cama de hospital, o acalanto de seu sorriso se desfez, dando lugar à serenidade da morte. A dor foi profunda. Um abismo se formou sob meus pés, sugando-me o espírito e o que restava de uma vida já debilitada. Lembra, minha idosa senhora, quando você deu vida aos ...

Infância na fazenda

Mamãe acorda cedinho. Ouço seus passos pela casa grande,  na maioria das vezes se concentrando na cozinha. De repente, sinto aquele gostoso aroma de café  feito num bule antigo, com pitadas de amor e carinho. Da cama, minhas narinas vão sorvendo aquele cheiro adocicado sempre com as atenções voltadas na conversa de mamãe com as sinhás  que, vez ou outra, dão puxadas no cachimbo, impregnando toda a casa com aquele cheiro forte de tabaco. Enrolado em uma capa, feito bicho-da-seda no casulo, esperando pacientemente a transformação em crisálida, escuto todos os...

Mariana

Oh!, Minas Gerais! Houve gritos, gemidos, sussurros, mas sirene de advertência não havia. Oh!, Minas Gerais! Vi a velocidade do barro amarelo como o escarro invadindo rios perenes. E a sirene? Oh!, Minas Gerais! Seres humanos e animais, numa sinergia enlouquecida, lutando de forma aguerrida contra os dejetos minerais. Mariana, Bento foi sepultado sob a lama do minério. Minério que, desde a época do império, a todos sobrepujou. Às margens do rio Doce, o retrato é desolador. O escarro amarelo do barro que absorveu o doce das águas  o fim de espécies, selou. E a sirene?...

Curtos poemas

Aquele cisco que caiu no olho da humanidade se transformou em tempestade de lágrimas salgadas. Lágrimas que rolavam pelos rostos ressecados. Coitados! Só lágrimas sobraram. O que apagou o ponto azul do quadro negro não foi o apagador, mas sim uma única língua afiada.

Maria Filó

Maria Filó, pobre que dava dó, vivia numa casinha amarrada de cipó lá no cafundó. Vivia do tanque pra cozinha, da cozinha pra bacia. Bacia que banhava os cinco rebentos. Haja água na bacia, Maria, pra lavar todos os catarrentos! O sol não dava trégua castigando o lombo dos meninos com seus raios solares. Não é que os meninos tinham nomes populares! Obaminha, Putin, Jimping, Hollandinho e Joachim. Moleques travessos, reviraram o sitiozinho do avesso. Gastavam a água da dona Filó e botavam fogo nas árvores e cipós, judiando da natureza, ai que dó! A vaquinha tava magricela, a galinha não mais tagarela e o a dona Filó, na janela. Desiludida e de prontidão, pensando em como combater a poluição que assolava aquele naco de sertão. Filó teve uma ideia, opção. Botou os moleques pra plantar árvores. Obaminha plantou as mudas na terra desnuda, na nascente agonizante. Putin, Jimping e Joachim combatiam as formigas cabeçudas ...

Anciã

Mãos frenéticas, dedos hábeis e agulhas carcomidas pelo tempo. Sincronia perfeita trançando milhares de linhas em um ritmo ora apressado, ora lento, porém contínuo, de um crochê deveras infinito.             Aquela senhora, anciã, de olhar sereno e cabelos brancos feito a neve, nunca descansa, apesar de ficar sentada em uma cadeira de balanço, que determina o equilíbrio de sua massa corporal no tempo e no espaço.  É assim que ela dosimetria a linha de nossa vida, trançando-nos quão uma corrente, nos ligando para sempre.             Suas mãos nunca foram submissas às linhas, até porque as linhas detinham uma vontade própria e um destino imprevisível. Sim, aquela senhora de pele envelhecida, nos conduz pelos labirintos do amor e do ódio, sintetizando todos os demais antônimos num emaranhado confuso, profuso, sereno.      ...

Poesias

Rede O balançar da rede chacoalha meu pensamento arredio, sagaz e guardião. Guardião de um corpo prostrado sobre um amontoado de tecidos trançados, num vai e vem sem razão. Medo de avião No espaço vazio o monstro chacoalha o coração dispara. Será que cai? Se cair minha alma sabe voar. Mina d’água O olho d’água brotou, por um tempo se manteve e depois secou. Eu, persistente, permaneci paciente. Fiz de tudo um pouco para o olho voltar a chorar. Até árvores plantei por lá. A água voltou, as árvores cresceram e suas folhas devoradas pelo formigueiro. Minha paciência? Se revoltou com as formigas.

A vida e a vela

Nasce uma vida, Acende-se uma vela. Vida que progride à medida que uma vela regride. Quando tomba uma vida, apaga-se uma vela. Mesmo com todo o cuidado, vem o vento apossando-se dela. Vivemos com todo o cuidado, mas às vezes somos descuidados. Sentimos o vento da desgraça que nos consome e nos leva ao encontro da vela. Um simples sopro e a escuridão é bem-vinda. Um simples deslize, vai-se uma vida.

Caminho

Caminhando em terras firmes, a passos longos, descobri a verdade. Descobri a realidade e tropecei na imoralidade. Sentia no pé uma dor, ora gostosa, ora assustadora. Continuei caminhando e o pé, sangrando. Deixava pelo caminho gotas de um vermelho que, às vezes, significava paz; às vezes, significava guerra. A dor aumentava, a angústia também. Vieram o delírio, o medo e a insegurança. Mas ao longo do caminho, a dor começou a desaparecer. Desapareceu também o vermelho significando guerra. Meus pés já estavam firmes. A dor do medo e da insegurança não mais existia. Continuei a passos longos, confiante que, em cada curva, encontraria, na imoralidade, a liberdade e a alegria.

Por que choras?

Por que choras agora? Porque perdeu a moradia e entes de uma mesma família? Por que choras agora? Porque a comida e a água estão contaminadas pelo suor de sua ambição? Por que choras agora? Porque a brisa, outrora suave, aquece sua pele carente de frescor? Por que choras agora? Porque aqueles papéis de balas, lançados ao ermo, outrora sepultaram os seus em amplas valas? Por que choras agora? Porque as artérias da sua vida estão poluídas pelos dejetos de sua cobiça? Não chores!!! Pois viestes de mim e a mim retornarás. Por vezes apunhalastes minhas costas. Morri dez, cem, mil vezes, mas jamais perdi a esperança de tê-lo como irmão, não como ladrão. Ladrão que rouba minha silenciosa vida, sem perdão, fazendo-me produzir um único e derradeiro barulho de um baque seco contra o chão. Ladrão que rouba minha vida onipresente, sem ao menos entender minhas súplicas, porque falamos dialetos diferentes. Eu produzo o so...

Caminho

Caminhando em terras firmes, a passos longos, descobri a verdade. Descobri a realidade e tropecei na imoralidade. Sentia no pé uma dor, dor ora gostosa, ora assustadora. Continuei caminhando e o pé sangrando. Deixava pelo caminho gotas de um vermelho que, às vezes, significava paz; às vezes, significava guerra. A dor aumentava, a angústia também. Vieram o delírio, o medo e a insegurança. Mas ao longo do caminho, a dor começou a desaparecer. Desapareceu também o vermelho significando a guerra. Meus pés já estavam firmes. A dor do medo e da insegurança não mais existia. Continuei a passos longos, confiante que, em cada curva, encontraria, na imoralidade, a liberdade e a alegria.

Fred, meu cão.

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Destruição das espécies

Por que procura sombra se o dia está apenas começando? Pode me responder, senhor? Tá bom! Se não quer, tudo bem. Então, encoste-se em mim, tire um cochilo, pois o dia, como disse, está apenas começando. O que tem na mochila? Daqui de cima, não vejo direito. Está com olhar de raiva, olhar suspeito... Lembro-me de que, quando aqui nasci, conduzida pelos ventos da primavera, a água era meu sustento; e o homem, meu alento. Muitos de vocês passaram por aqui. Alguns a sorrir, outros a meditar, a escrever, ou simplesmente a cochilar. Crianças em mim se escondiam, brincavam, choravam, sorriam. Quantas gerações aos meus pés cresceram, multiplicaram-se e morreram. Sabe, senhor, sou uma senhora idosa, que a cada dia renova o ar de sua respiração, a água de sua terra e a manutenção de sua espécie. Agora sei que carrega nas mãos minha destruição. Por décadas, ouvi esse barulho pelas redondezas, destruindo a natureza, sem razão, se...