Por que choras?

Por que choras agora?
Porque perdeu a moradia
e entes de uma mesma família?

Por que choras agora?
Porque a comida e a água estão contaminadas
pelo suor de sua ambição?

Por que choras agora?
Porque a brisa, outrora suave, aquece sua pele
carente de frescor?

Por que choras agora?
Porque aqueles papéis de balas,
lançados ao ermo, outrora
sepultaram os seus em amplas valas?

Por que choras agora?
Porque as artérias da sua vida
estão poluídas pelos dejetos
de sua cobiça?

Não chores!!!
Pois viestes de mim
e a mim retornarás.

Por vezes apunhalastes
minhas costas. Morri dez, cem, mil vezes,
mas jamais perdi a esperança de tê-lo como irmão,
não como ladrão.

Ladrão que rouba minha silenciosa vida, sem perdão,
fazendo-me produzir um único e derradeiro
barulho de um baque seco contra o chão.

Ladrão que rouba minha vida onipresente,
sem ao menos entender minhas súplicas,
porque falamos dialetos diferentes.

Eu produzo o som do acasalamento,
da reprodução. Você, o som da desgraça,
da destruição.

Estou me cansando desta amarga batalha
de apenas um inimigo.
Matando-me mil e uma vezes,
com certeza irastes comigo.
  
Lembra-te, irmão! Do pó, moldei sua carne,
De mim, moldastes sua natureza.

De nós, moldastes a aniquilação.

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