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Dois troncos de madeira, com idade avançada  e carcomidos por  isópteros  e outros insetos, sustentavam uma tábua bem mais nova, que de tempos em tempos era trocada, mantendo, assim, o banquinho da conversa devidamente alinhado com o tempo, com um grande açude e com uma floresta intocável   que abraçava tudo ao seu redor.  O guarda-sol do banquinho era uma imensa árvore de tamarindo, de folhagem vistosa e exuberante. Duas perninhas ansiosas e desnudas  gangorravam  sobre o banquinho, enquanto as outras duas pernas, bem agasalhadas e quietas, esperavam pacientemente por gostosas perguntas. —  Vovô, quando o senhor era criança, esse banquinho também era criança? —  Sim, meu querido. Foi construído pelo meu pai, seu bisavô. Com o passar dos anos, só trocávamos a madeira  onde estamos sentados  agora.  —   Vovô, o senhor conversava com o seu papai igual conversa comigo agora?  —   Sim, meu anjinho!  Na   úl...

Sons e sons

Noite quente, tempestade intensa. Flashes de um céu em breu retratavam meu corpo inerte sobre a cama, ouvindo claramente sons próximos de violão. Onze horas da noite. Meu corpo se levanta e levita, vibrando qual as cordas do violão que insistiam em produzir sons delirantes. Saio à rua suado e descalço. A mistura de águas sobre o corpo produzia evaporação de notas musicais que colidiam com os acordes naturais. E os sons, se propagando, entrelaçavam-se. O grave rugido do céu não intimidava o agudo de vários insetos voando em torno de lâmpadas acesas. Eles idolatravam a luz, morriam por elas. Um concerto gigantesco se formou na rua. Os sons de tevês, rádio, discussão familiar e buzinas de automóveis produziam sons irreconhecíveis. E o violeiro não parava de tocar. Sob uma marquise escura, deparei com aquela figura. Maltrapilho, enrolado em uma coberta surrada, produzindo acordes musicais, cadenciais e constantes, ignorando demais s...

Amor incondicional I

Te amei. Te amei, quando os olhares se cruzaram e mãos se apertaram em uma gélida manhã de inverno. Te amei. Te amei, quando na inocência das palavras lábios se tocaram, línguas se entrelaçaram numa dança passivamente gostosa e efusivamente lascívia. Oh!!!, te amei. Te amei tanto, que na luxúria de seu encanto toquei seu corpo, senti o seu gosto e gozei no seu gozo. Fiz repousar na entranha de sua carne a semente da minha existência. Seu corpo estava suado, seus cabelos, avacalhados. De sua vulva vulcânica, a lava não queimava e, sim, lubrificava o vai-...

Almas separadas

Hoje acordei, virei na cama mas você não estava ao meu lado. Que sensação horrível! Costumava me virar, olhar você e desejar bom dia. Todos os dias, a mesma rotina. Nos 56 anos de nossa comunhão, amor, afeto e companheirismo, unimos e dividimos nossas vidas. Não consigo deixar de verter lágrimas que abrigam em seu travesseiro, cuidadosamente colocado em nosso canto da cama. Seu perfume ainda está ali. Fala comigo!! Toda manhã é essa angústia que comprime meu peito, esfacelando minha alma. Adorável senhora, fala comigo em sonhos. Há muito, não consigo tê-los. Minhas noites são vazias de sonhos, são vazias de você. Amei-a até o seu último suspiro. Naquela cama de hospital, o acalanto de seu sorriso se desfez, dando lugar à serenidade da morte. A dor foi profunda. Um abismo se formou sob meus pés, sugando-me o espírito e o que restava de uma vida já debilitada. Lembra, minha idosa senhora, quando você deu vida aos ...

Infância na fazenda

Mamãe acorda cedinho. Ouço seus passos pela casa grande,  na maioria das vezes se concentrando na cozinha. De repente, sinto aquele gostoso aroma de café  feito num bule antigo, com pitadas de amor e carinho. Da cama, minhas narinas vão sorvendo aquele cheiro adocicado sempre com as atenções voltadas na conversa de mamãe com as sinhás  que, vez ou outra, dão puxadas no cachimbo, impregnando toda a casa com aquele cheiro forte de tabaco. Enrolado em uma capa, feito bicho-da-seda no casulo, esperando pacientemente a transformação em crisálida, escuto todos os...

Mariana

Oh!, Minas Gerais! Houve gritos, gemidos, sussurros, mas sirene de advertência não havia. Oh!, Minas Gerais! Vi a velocidade do barro amarelo como o escarro invadindo rios perenes. E a sirene? Oh!, Minas Gerais! Seres humanos e animais, numa sinergia enlouquecida, lutando de forma aguerrida contra os dejetos minerais. Mariana, Bento foi sepultado sob a lama do minério. Minério que, desde a época do império, a todos sobrepujou. Às margens do rio Doce, o retrato é desolador. O escarro amarelo do barro que absorveu o doce das águas  o fim de espécies, selou. E a sirene?...

Curtos poemas

Aquele cisco que caiu no olho da humanidade se transformou em tempestade de lágrimas salgadas. Lágrimas que rolavam pelos rostos ressecados. Coitados! Só lágrimas sobraram. O que apagou o ponto azul do quadro negro não foi o apagador, mas sim uma única língua afiada.