Anciã

Mãos frenéticas, dedos hábeis e agulhas carcomidas pelo tempo.
Sincronia perfeita trançando milhares de linhas em um ritmo ora apressado,
ora lento, porém contínuo, de um crochê deveras infinito.
           
Aquela senhora, anciã, de olhar sereno e cabelos brancos feito a neve,
nunca descansa, apesar de ficar sentada em uma cadeira de balanço,
que determina o equilíbrio de sua massa corporal no tempo e no espaço. 
É assim que ela dosimetria a linha de nossa vida, trançando-nos
quão uma corrente, nos ligando para sempre.
           
Suas mãos nunca foram submissas às linhas,
até porque as linhas detinham uma vontade própria e um destino imprevisível.
Sim, aquela senhora de pele envelhecida, nos conduz pelos labirintos do amor e do ódio, sintetizando todos os demais antônimos num emaranhado confuso, profuso, sereno.
           
Que senhora sábia! Na labuta diuturna do trançar de nossas vidas,
ela chora, sorri e expressa todas as interjeições possíveis e impossíveis,
jamais nos privando do livre arbítrio.
Ela nunca se apega a uma linha em especial
e nem confere o quanto de pressão e elasticidade uma linha suporta.
           
Que senhora magnífica! Sem exitar, conduz o bom,
da mesma forma que conduz o mal,
entrelaçando ambos em igualdade de condições.
Essas linhas suportam pressão, mas se desgastam com o tempo.
Umas permanecem intactas, outras sofrem avarias, corroem e se rompem.
           
Aquelas que sofrem avarias podem assim permanecer por toda a existência,
bem como podem se recompor com a ajuda de corpos estranhos,
cobrindo feridas e fortificando o fio fino da vida.
           
As que se rompem, deixam o legado de ter contribuído para a existência das outras,
pois, conjuntamente, se tornaram fortes, coesas, sublimes.           
As que se corroem, aceitam essa condição, alegando que o tempo é infortúnio do ser,
e a passividade as conduzem sem resistência, sem rumo ou direção,
mesmo com o entrelaçar contínuo, firme e, de tempos em tempos, inquebrável.
           
Aquela senhora, ciente disso tudo, consegue dar continuidade às linhas que se partiram, prendendo-as em outras que, de igual modo, se fortificam ao se tocarem, ao se amarrarem em outras linhas sadias, avariadas ou corroídas, contribuindo para formação do tecido chamado humanidade.
           
Essas linhas nada mais são que nossas vidas sendo conduzidas por uma bela senhora que, de postura serena, testemunhou e continuará testemunhando todas as ações humanas, desde que começou a trançar as primeiras duas linhas.
Com todo o prazer, essa senhora se chama Tempo.


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