Amor Incondicional
Amor Incondicional As mãos cuidadosamente remexem a comida. Aquelas mãos, cujos sulcos se evidenciam numa pele já sofrida pelo tempo, preparam mais uma fonte de vida. Mexendo o angu com certa dificuldade, uma vez que a dor insiste em imobilizar seus membros, ela se lembra da dor. Daquela dor que veio repentinamente e cessou com o nascimento de sua segunda vida. Lembrou-se com carinho do rostinho feliz daquele anjo, cujo olhar dizia “oi, mamãe, aqui estou eu”. Lembrou-se das dificuldades da vida; do crescimento sadio daquele anjo. A pá de angu, alheia àqueles pensamentos, gira feito marionete, num ritmo gostoso e silencioso que produzem na mãe uma paz de espírito e uma certeza do dever cumprido. O angu, o arroz e o feijão, já prontos, repousam fumegantes sobre o fogão à lenha. Ela, à espera do filho, cuidadosamente fecha as panelas, como se fossem metais preciosos, protegendo-as das impurezas. A enxada lavra aquela terra. O ritmo daquela ...