Somos assim

Por um caminho da vida, encontrei um maltrapilho.
De roupas surradas, de pele manchada, de olhar sofrido.
Nossos olhos se cruzaram, se desviaram.
Os meus, por soberba; os seus, por vergonha.
Vergonha da própria existência; da própria aparência.

Nos cruzamos. Eu, andar imponente, corpo ereto, olhar distante.
Ele, andar cambaleante, quase rastejante.
Seu eu não existia. Seus olhos nada diziam.

Quando nos distanciamos, sobraram silêncio e pensamentos.
Eu, mesclando pensamentos de piedade, repulsa e satisfação.
Satisfação por ser normal, por ter uma condição social.
Ele, misturando pensamentos de indignação, de amarguras, de solidão.

Nesse caminho da vida, quilômetros adiante, o inverso ocorreu.
O ser normal, de condição social, não era mais eu.
E o maltrapilho, de andar rastejante, tornou-se infante.

Novamente nossos caminhos se cruzaram.
Meus sentimentos de outrora tornaram-se os  pesadelos de agora.
E o maltrapilho, que experimentou o inferno da solidão
agora sentia piedade, repulsa e satisfação.

Mas, no turbilhão de angústias e emoções
corpos e sentimentos se abraçaram. Mãos e pele se tocaram

caminhando na mesma direção.

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