Sons e sons
Noite
quente, tempestade intensa.
Flashes
de um céu em breu retratavam
meu
corpo inerte sobre a cama,
ouvindo
claramente sons próximos de violão.
Onze
horas da noite.
Meu
corpo se levanta e levita,
vibrando
qual as cordas do violão
que
insistiam em produzir sons delirantes.
Saio à
rua suado e descalço.
A
mistura de águas sobre o corpo
produzia
evaporação de notas musicais
que
colidiam com os acordes naturais.
E os
sons, se propagando, entrelaçavam-se.
O grave
rugido do céu não intimidava o agudo
de
vários insetos voando em torno de lâmpadas acesas.
Eles
idolatravam a luz, morriam por elas.
Um
concerto gigantesco se formou na rua.
Os sons
de tevês, rádio, discussão familiar
e buzinas
de automóveis produziam sons irreconhecíveis.
E o
violeiro não parava de tocar.
Sob uma
marquise escura, deparei com aquela figura.
Maltrapilho,
enrolado em uma coberta surrada,
produzindo
acordes musicais, cadenciais e constantes,
ignorando
demais sons que insistiam em se propagar.
Caminhei
em sua direção.
As
batidas do meu coração e o ritmo da canção
entraram
em compasso, recebendo dos meus passos
sons
produzidos no tocar dos pés sobre o chão aquoso.
O rosto
daquele homem descortinava seu passado.
Sulcos
profundos em pele ressecada e escamada
não
conseguiam encobrir a felicidade das feições,
o
brilho do olhar e o cantar dos lábios murchos.
Ele era
feliz à sua maneira.
Não se
importava com o som agudo de duas ratazanas
que
brigavam por um pedaço de pão,
lançado
pelo violeiro num ponto seco da calçada.
Do
outro lado da rua, uivados se propagaram.
Um
cachorro encharcado, debaixo de um telhado quebrado,
chorava
a má sorte de não ter um lar sequinho,
condizente
com sua condição de animal.
A chuva
precipitava mais forte.
Os
grossos pingos chocavam em minha pele escura,
produzindo
um som diferente, que meus ouvidos,
pacientes,
tratavam de processar.
Mais
uma vez olhei o violeiro.
Indiferente
ao meu olhar, continuou a concentrar
nos
dedos ágeis que deslizavam sobre cordas
frenéticas
e barulhentas.
Dei
meia volta rumo ao meu lar.
Todos
os sons que para trás deixei
seguiram
meus passos,
soprando
em meus ouvidos.
Em casa
cheguei, na cama deitei.
Ao meu
lado se acomodaram todos aqueles sons
dividindo
comigo um travesseiro,
um colchão e dois ouvidos.
Comentários
Postar um comentário