Dois troncos de madeira, com idade avançada e carcomidos por isópteros e outros insetos, sustentavam uma tábua bem mais nova, que de tempos em tempos era trocada, mantendo, assim, o banquinho da conversa devidamente alinhado com o tempo, com um grande açude e com uma floresta intocável que abraçava tudo ao seu redor.
O guarda-sol do banquinho era uma imensa árvore de tamarindo, de folhagem vistosa e exuberante.
Duas perninhas ansiosas e desnudas gangorravam sobre o banquinho, enquanto as outras duas pernas, bem agasalhadas e quietas, esperavam pacientemente por gostosas perguntas.
— Vovô, quando o senhor era criança, esse banquinho também era criança?
— Sim, meu querido. Foi construído pelo meu pai, seu bisavô. Com o passar dos anos, só trocávamos a madeira onde estamos sentados agora.
— Vovô, o senhor conversava com o seu papai igual conversa comigo agora?
— Sim, meu anjinho! Na última conversa que tivemos, eu colocava a plantinha na cova enquanto ele a regava com a água do açude.
— Onde está essa plantinha, vovô?
Com um sorriso gostoso, num rosto arado por sulcos bem definidos, o vovô sussurrou no ouvidinho do netinho:
— Está fazendo sombra pra gente agora. — Ele apontoupara cima com um semblante de orgulho e satisfação.
Aquela criança, no auge dos seus cinco anos, arregalou os olhos e fez um biquinho de surpresa, abraçando intensamente seu vovô amado.
— Vovô, então essa árvore é sua filha. O senhor cuidou dela igual cuida de mim.
O vovô mais uma vez sorriu, prolongando com reciprocidade o abraço gostoso recebido.
— Sim, ela é minha filha, e hoje ela cuida da gente, fornecendo sombra e ar para a gente respirar.
— Vovô, o senhor é o melhor vovô do mundo! Quero cuidar do senhor quando eu crescer.
Uma lágrima silenciosa e sorrateira escorreu por um rosto machucado pelo tempo, escondendo-se na gola da camisa que agasalhava com carinho o corpinho daquela criança amorosa.
— Você já cuida de mim, rapazinho! Meu coração pula de alegria dentro do peito!
Um choro incontrolável e ressentido brotou no meio daquele abraço, tentando, em vão, se esconder no ventre do avô, agora surpreso com aquela situação.
— Vovô, tenho medo do papai do céu levar o senhor! —Aquela embargada e sincera vozinha chegou timidamente aos ouvidos do avô, preparando-o para uma resposta tão saudável quanto o almoço que estava sendo preparado no fogão a lenha pela mãe do menino.
— Jamais morrerei para você, minha criança! Como essa árvore, o protegerei de todas as intempéries da vida. Agora, vamos saborear aquela comidinha gostosa que só sua mamãe sabe fazer!
— Vou comer arroz, feijão e angu, vovô!
— Isso mesmo!
O vovô, com a mão já trêmula, enxugou suavemente as lágrimas sinceras de um coraçãozinho que transbordava amor, deixando para trás um tamarindeiro pleno e cuidadoso.
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